Não sei se vocês me entendem, mas ultimamente tenho sentido falta de sofrer. Não que eu seja masoquista, não é isso, sinto falta do que causa o mais saboroso dos sofrimentos. Falando claro, sinto falta de me apaixonar. Sinto falta de fazer coisas idiotas, ilógicas, de ter a vista eclipsada pelo sentimento. Sinto falta de sonhar um futuro improvável, com a certeza infantil que somente os apaixonados têm. Sinto falta de beijar. Pois um beijo sem sentimentos não passa de um roçar de lábios. Sinto falta de ser sofridamente feliz.
Não sei exatamente onde perdi a capacidade de me apaixonar, acho que fui deixando um pedaço dela em cada boca em que procurei tal sentimento, e não achei. É como se tivesse fatigado meus sentimentos através do abuso dos sentidos. Tornei-me insatisfeito, onde nada, nem ninguém, pode me completar. Fiquei vazio. E agora sinto esse vazio ir sugando as outras alegrias. Sinto uma falta de sentido, uma falta de propósito, como se em cada conquista viesse embutida uma derrota.
Talvez o sentimento esteja morrendo no mundo em que vivemos. Parece que as emoções foram guardadas, e os corações foram trocados por processadores, precisos e frios. É como se amor já não fosse arte, e sim ciência. Mas pensando bem, não acredito nisso. Quanto mais nos protegemos por fora, mais frágil se mantém nosso interior. Quando falamos de paixão, somos tão fracos, frívolos, emotivos e tolos quanto foram todos nossos antepassados. Ainda somos pessoas, e isso não muda.
A paixão está ai, em algum lugar. Sim, ela não é fácil de encontrar, nunca foi, não séria paixão se fosse fácil. Mas ela vai aparecer, não quando eu deseje, nem quando eu precise, mas quando simplesmente e inexplicavelmente acontecer. Enquanto isso continuo a viver, procurando e perdendo, andando e tropeçando, mas sempre acreditando, ou não.
